14/07/10

Abrir os Cofres



No dia 5 deste mês, fui até à Cinemateca ver uma série de pequenos filmes mudos portugueses do início do século XX, boa parte deles desconhecidos do público e dos historiadores. Não se trata, porém, de filmes de ficção, mas sim de reportagens sobre acontecimentos político-sociais da época (ver lista na imagem: carregar para ver em tamanho maior). Num total de cerca de 70 minutos, algumas figuras, acontecimentos e locais que constituem objecto de trabalho dos historiadores da época contemporânea portuguesa – como eu – ganham assim uma outra vida, mais palpável, mais real, dentro de nós. Rui Ramos, que fez uma preciosa introdução contextualizadora dos filmes, revelou mesmo ter sentido uma espécie de choque quando, ao visioná-los pela primeira vez, pôde observar determinadas figuras históricas a movimentar-se, estas, que até aí, apenas tinham existência nos textos e nas fotografias. De facto, para quem tem a paixão da História, eu diria que, mais do que chocante, poderia ter sido quase comovente, não fosse a limitada duração dos filmes constituir um certo entrave para o acumular de tal emoção.

Estes filmes, só por si, dariam um verdadeiro ensaio histórico, mas, sinceramente, não me apetece ir por aí. Prefiro apontar aqui o que me ficou na memória: os cidadãos anónimos intrigados com aquela máquina estranha que os mirava – a câmara de filmar – atitude comum a todos os filmes; D. Manuel II, o solitário miúdo-rei, a brincar com o seu cavalo; a descoberta do potencial propagandístico do cinema por parte dos republicanos, bem visível nos filmes sobre as incursões monárquicas, todos, ou quase todos, ensaiados; a Baixa lisboeta do princípio do século XX, em cujo Rossio quase pareço conseguir vislumbrar o vulto irónico e trocista de Fialho de Almeida, à porta do Café Martinho, abanando a cabeça perante o fervor revolucionário que o envolvia; o funeral de D. Manuel II, o verdadeiro final de uma época e o começo de outra, tão negra quanto o fato que o seu criador, Salazar, levou à cerimónia.

02/07/10

Músicas do Baú


LED ZEPPELIN - "STAIRWAY TO HEAVEN"

06/06/10

Fear and Loathing...

Revi recentemente o fantástico Delírio em Las Vegas, realizado por Terry Gilliam e protagonizado por Johnny Depp e Benicio Del Toro. Aqui ficam algumas grandes passagens deste filme baseado na obra homónima de Hunter S. Thompson (1937-2005):

“We had two bags of grass, seventy-five pellets of mescaline, five sheets of high powered blotter acid, a salt shaker half full of cocaine, a whole galaxy of multi-colored uppers, downers, screamers, laughers... Also a quart of tequila, a quart of rum, a case of beer, a pint of raw ether and two dozen amyls”.

“This was a superior machine – ten grand worth of gimmicks and high price special effects. The rear windows leapt up with a touch like frogs in a dynamited pond. The dashboard was full of esoteric lights and dials and meters that Iwould never understand”.

“We had abused every rule that Vegas lived by -- burning the locals, abusing the tourists, terrifying the help. The only chance now, I felt, was the possibility that we'd gone to such excess that nobody in the position to bring the hammer down on us could possibly believe it”.

“There he goes -- one of God's own prototypes -- a high powered mutant of some kind never even considered for mass production. Too weird to live and too rare to die”.

18/05/10

Desabafos Ligeiros

3 coisas irritantes:

1-Gente que caminha em passeios públicos como se estivesse no corredor lá de casa: ou seja, se o passeio for estreito, se forem a pisar ovos e se forem em grupo estilo Tombstone (ver alinhamento das personagens no minuto 1, mais ou menos), ninguém passa ou então que vá pela estrada e é se quiser...

2-Gente que fecha as janelas dos autocarros à bruta em vez de segurar o vidro até este encostar à borracha para não fazer estrondo.

3-A quantidade de "heróis" do volante que há por essas estradas em excesso de velocidade, a fazer ultrapassagens loucas, a apitar quando o sinal verde abre se um tipo demora mais de 2 segundos a pôr o carro a funcionar, etc, etc.

03/05/10

Uma opinião...

José Rodrigues dos Santos lançou o seu novo livro, intitulado Conversas de Escritores. Este reúne as entrevistas que o jornalista fez o ano passado a uma série de autores nacionais e internacionais num programa que passou na RTP-N.

Quando tive conhecimento da publicação desta obra, lembrei-me imediatamente do programa, a cujos episódios assisti quase na totalidade, mas também da conclusão a que cheguei quando este terminou: Rodrigues dos Santos conseguiu fazer uma série inteira de um programa de entrevistas, seleccionando os escritores e, sobretudo, as perguntas, de modo a poder justificar (e promover) o seu próprio estilo de escrita de ficção, cujo valor não me cumpre aqui analisar, até porque nunca li um livro seu. Quase todas elas se encaminhavam para o mesmo objectivo: não propriamente dar a conhecer a obra e a personalidade daqueles autores em si mesmos, mas sim valorizar a escrita ficcional do jornalista da RTP. Por exemplo: no que diz respeito aos romances, Rodrigues dos Santos dá grande importância à história, contrastando sempre essa sua opção com a de autores complicados e embrenhados no seu próprio mundo mais ou menos impenetrável e incompreensível - logo, era frequente perguntar aos escritores entrevistados qual destas linhas eles preferiam, sabendo, à partida, pelas suas obras, que iriam defender a linha que ele próprio preferia.

É uma opinião, nada mais. À parte desta vertente autojustificativa e algo instrumental do programa, este até tinha o seu interesse.

26/04/10

Músicas do Baú

THE VELVET UNDERGROUND & NICO - "VENUS IN FURS"

16/04/10

Revelação: a face do "outro" Rimbaud

Fotografia retirada de lefigaro.fr


Finalmente, uma nova fotografia de Rimbaud. Encontrada por acaso por dois alfarrabistas no meio de uma espécie de bazar ou feira de velharias, dá-nos, pela primeira vez, a visão do poeta francês enquanto adulto.

Rimbaud é o segundo a contar da direita.


Detalhe retirado de lefigaro.fr

Em breve, escreverei sobre Rimbaud para quem não conhece o maior génio poético de sempre...

10/04/10

Excalibur

Gravura de Gustave Doré (1832-1883) para a obra Idylls Of The King (publicada entre 1856 e 1885), de Alfred, Lord Tennyson (1809-1892), baseada nas lendas arturianas

Realizada em 1981 por John Boorman, Excalibur é, provavelmente, a melhor adaptação cinematográfica de sempre das lendas arturianas. Desde logo porque, embora se inspire em diversas versões medievais destas - com destaque para as obras de Thomas Malory e Chrétien de Troyes - consegue tirar o melhor de cada uma delas e conjugá-las numa só história coerente e fiel ao seu espírito original. Depois, pela forma como joga constantemente com a dualidade entre os magníficos ambientes mágico-oníricos e a brutalidade realista, por vezes, hiper-realista, das acções que neles se passam, sobretudo os combates. Ainda assim, existe uma quase omnipresente e misteriosa luz verde que se reflecte na água, nas rochas, nas espadas, nas armaduras, como que a relembrar-nos que por mais referências histórico-reais a que tentemos associar esta história (Alta Idade Média, actual Inglaterra) ela decorre, no essencial, numa terra intemporal e sem nome, onde a magia e o sobrenatural transpiram de todo o lado. Entramos, assim, nos domínios do expressionismo, patente, de igual modo, na forma como o tom das armaduras se altera - mais escuras ou mais claras - conforme o carácter de quem as usa é mais, ou menos, evoluído, ou na própria revelação de que Arthur e a terra (no sentido de "the land", o território, o reino) são a mesma entidade, ou seja, de que estão ligados de tal maneira que o que acontece a um reflecte-se no outro.

Excalibur é um filme sobre a busca da perfeição e o conflito desta com a inevitável imperfectibilidade humana, sobre o uso do poder, sobre o eterno ciclo da vida e da morte, da decadência e da regeneração: Arthur, o rei perfeito, é incapaz de superar a traição do seu melhor amigo com a mulher, Guinevere, abandona a sua espada, Excalibur, lançando o reino no caos, ou seja, a questão pessoal sobrepõe-se ao seu dever enquanto rei; Lancelot, o suposto cavaleiro perfeito, trai Arthur e leva-lo à situação atrás descrita, ou seja, a mesma figura que permite ao reino alcançar o supremo estado de esplendor é a causa da sua queda; Merlin, o ser supra-humano, reconhece a forma errada como utilizou o seu imenso poder mágico para ajudar Uther Pendragon, o pai de Arthur, a possuir sexualmente Igrayne, a mulher do seu inimigo; ainda que não possa escapar à lei do ciclo da vida e da morte, Arthur, como herói que é, tem influência decisiva na forma como essa lei acaba por se aplicar ao matar Mordred, o filho vilão, logo após este o ter, por sua vez, ferido mortalmente com uma lança - no fundo, reconhece e aceita que o seu tempo acabou, mas, ainda assim, orienta o futuro do seu reino num sentido de regeneração em vez de aceitar um destino de sombras nascido do confronto edipiano com Mordred. No fim de contas, a única coisa que é eterna é a terra, a Natureza, a verdadeira fonte de poder dos homens, os quais ela própria escolhe atribuindo-lhes, ou não, a capacidade de empunhar a espada Excalibur, símbolo desse pacto. Na parte final do filme, a espada regressa às mãos da Dama do Lago, personificação das forças da Natureza, simbolizando o fim do poder desta, ou, pelo menos, a sua transfiguração, face ao avanço crescente da religião cristã.

Para concretizar, duas chamadas de atenção: uma, para a presença da música de Wagner e do conhecido "Fortuna", de Carl Orff, factor decisivo para dar o tom épico por que o filme clama; outra, para a excelente prestação dos actores, boa parte deles oriundos da cena teatral britânica: Nigel Terry (Arthur), Nicol Williamson (Merlin), Nicholas Clay (Lancelot), Cherie Lunghi (Guinevere), Paul Geoffrey (Percival), e os mais conhecidos, devido à sua posterior carreira cinematográfica, Helen Mirren (Morgana), Gabriel Byrne (Uther Pendragon), Liam Neeson (Gawain) e Patrick Stewart (Leondegrance).

Já tinha visto Excalibur há muitos anos, mas tive a oportunidade de o rever na RTP2 na semana passada. Espero conseguir ver a versão em DVD, que tem mais 20 minutos de filme, num total de 140. A primeira versão do filme tinha 3 horas de duração, mas como quase sempre, as exigências da dupla "indústria gananciosa" e "público-chiclete" levaram a cortes radicais e à perda irrecuperável, ao que parece, das cenas adicionais.

Aqui fica o trailer.


06/09/08

Notas Contemporâneas

1-A constante referência do passado de herói de guerra de John McCain como trunfo perante Barack Obama nas eleições para a presidência dos Estados Unidos não pode deixar de me fazer lembrar um sketch do Gato Fedorento. Sim, aquele do "gajo de Alfama", que a partir do momento em que diz que esteve na Guiné ganha um tal ascendente sobre os demais convidados, que o torna o mais capacitado e informado comentador sobre tudo o que se passa no mundo das relações internacionais.*


* Apesar de todo o respeito que me merece o sofrimento por que McCain passou (foi prisioneiro de guerra no Vietname durante 5 anos, tendo sido vítima de doença, tortura e isolamento).

2-A História mostra-nos que as revoluções contemporâneas foram sempre impulsionadas, não pelas classes mais baixas, ou pelas classes mais altas, mas sim pela classe média descontente.

Olhemos então para o que se passa hoje em dia em Portugal.

As novas gerações são as que melhores habilitações académicas possuem. São mais cultas (por vezes, diz-se que os jovens dos anos 50 e 60 e por aí fora eram mais cultos - talvez, mas eram uma minoria, com uma cultura reduzida praticamente à influência francófona e marxista ou afim), o acesso fácil à viagem dá-lhes um conhecimento do mundo muito maior (antigamente, os que podiam sair de Portugal, não saíam do circuito Paris - Suíça - Alemanha, onde estavam as universidades), dominam as novas tecnologias e as línguas, etc, etc.

Porém, só uma minoria, mesmo muito minoria das novas gerações é que consegue o acesso a cargos, postos, empregos, de acordo com as suas competências. Este facto gera frustração. À medida que o tempo for passando e que este grupo de pessoas vá engrossando, a frustração será maior. A consciência de que são os mais capazes, mas que não conseguem chegar onde merecem por factores que lhes são alheios, gerará uma massa de jovens e jovens adultos descontentes. Uma massa que, ao contrário de outras massas do passado, tem margem de manobra, tem poder, o poder do conhecimento, do esclarecimento. Um dia, quando essa massa for suficiente grande, poderemos vir a enfrentar convulsões político-sociais decisivas, não apenas a nível nacional, mas sobretudo europeu, caso não surjam soluções alternativas para a política de emprego que se vai praticando.

Trata-se apenas de uma reflexão. Não sei se fará sentido a toda a gente. A mim faz. Algum, pelo menos.

3-Hoje, ao passar pela RTP1 dei de caras com um videoclip dos Metallica. Tratava-se de "The Day That Never Comes", do seu novo álbum intitulado Death Magnetic.

Gostei. Parece-me haver uma tentativa de recuperar alguma da sua sonoridade nos anos 80 e princípio dos 90. Na verdade, quase consegui reconhecer partes de músicas de álbuns do passado em diversas passagens da nova faixa. O corpo da música, por assim dizer, lembra-me o "The Unforgiven"; o refrão tem algo do "Fade To Black"; há uma espécie de interlúdio, que me lembra as guitarras enroladas do Load misturadas a bateria crua, violenta e complexa do ...And Justice For All; depois, há uma sequência instrumental acelerada que lembra o "One", a que se segue uma fantástica guitarra melódica, que remete para Iron Maiden (uma das influências da banda - talvez não seja por acaso que, este ano, no concerto que deram no Rock In Rio, Kirk Hammett, numa das improvisações de guitarra entre-músicas que são seu hábito, tenha dedilhado um pouco de "Hallowed Be Thy Name", dos Maiden) e para o metal mais progressivo, o qual tinham por hábito aflorar pontualmente em álbuns como Ride The Lightning, Master Of Puppets e ...And Justice For All.

Em conclusão: trata-se de um épico de 8 minutos, com uma estrutura muito semelhante a "One" (o tema também é a guerra), embora com uma componente progressiva mais marcada.

Aqui fica o videoclip. Veremos o que o resto do álbum nos reserva...



METALLICA - "THE DAY THAT NEVER COMES"

18/06/08

Balanço de uma ida à Feira do Livro

A vida está cara.

Assim, este ano, a pesca foi pouca. Aqui ficam os livros que comprei por lá:

1-Brinde aos Senhores Assinantes do Diário de Notícias em 1881.
Trata-se de uma raridade que consegui sacar ao módico preço de... 5 euros! Remonta ao ano de 1882 e inclui a primeira edição de um conto de Fialho de Almeida, "O Roubo", que foi depois coligido em A Cidade do Vício, daí grande parte do meu interesse. Comprei-o num alfarrabista, obviamente.

2-Mendo Castro Henriques, et. al., Dossier Regicídio - O Processo Desaparecido.
Esta obra parece-me estar muito bem organizada, para além de basear-se numa análise de numerosa bibliografia e, mais importante, de muitas fontes inéditas e pouco trabalhadas. Ainda não tive tempo para a ler. Apenas a folheei. Porém, já dá para ter duas ideias sobre ela: primeiro, não parece trazer grandes novidades sobre o assunto - novidades no sentido de descobertas; segundo, o seu discurso é bastante faccioso, a pender para o lado monárquico - na verdade, parece-me uma espécie de ajuste de contas com fantasmas de historiadores republicanos ou algo do género. Na escrita da História, devemos fazer um esforço para não deixar as nossas convicções pessoais, inclusive as políticas, interferirem com as análises produzidas, embora saibamos que a objectividade total é impossível, ainda mais nas Ciências Sociais e Humanas. Tal esforço parece não ter existido nesta obra. Mas não me queria alongar mais, enquanto não a ler, para não cair na injustiça.

3-Jack Kerouac, Os Subterrâneos
Um clássico de um dos expoentes da Beat Generation. Escrito em três noites com benzedrina como combustível, é talvez o melhor exemplo da "prosa espontânea" de Kerouac, ou seja, de um estilo de escrita que se queria completamente livre e fluido, sem correcções ou reflexões, bem improvisada, como se de uma música de jazz se tratasse. Aliás, nem existem pontos, apenas travessões...

4-Charles Baudelaire, A Invenção da Modernidade
Trata-se de uma compilação de vários textos de Baudelaire e que me interessam particularmente para a tese.

5-Ambrose Bierce, Dicionário do Diabo
Da autoria de um dos principais escritores e jornalistas norte-americanos da segunda metade do século XIX e início do século XX, desaparecido no México em 1913 ou 1914, este livro dá-nos, com grande humor e lucidez, uma visão de como o mundo é e não como o queremos ver, ou seja, segundo a sua própria definição, cínica, no verdadeiro significado da palavra. Algumas entradas:

"HISTÓRIA, n. Um relato geralmente falso de acontecimentos geralmente fúteis, contados por governantes geralmente velhacos e soldados geralmente tolos."
"HISTORIADOR, n. Bisbilhoteiro em larga escala."
"CONFERENCISTA, n. Indivíduo que tem a mão no nosso bolso, a língua no nosso ouvido e a fé na nossa paciência."
"CIRCO, n. Um sítio onde os cavalos, os póneis e os elefantes podem ver homens, mulheres e crianças a fazerem figura de parvos."
"LEITE-CREME, n. Uma substância detestável que resulta da conspiração maléfica entre a galinha, a vaca e o cozinheiro."
"IGNORANTE, n. Uma pessoa que desconhece certas coisas que nos são familiares, conhecendo outras coisas das quais nunca ouvimos falar."

Huuuuuuum...

Os resultados das provas de aferição de Português e Matemática realizadas pelos alunos do 4º e 6º anos de escolaridade foram hoje divulgados.

Devo dizer que, quando os vi, lembrei-me imediatamente das eleições do tempo do Estado Novo...

Tirem as vossas próprias conclusões.

08/06/08

Pão e Circo

Todo este circo mediático montado à volta da selecção nacional de futebol já começa a enjoar. E digo desde já que sou insuspeito, pois gosto de futebol (já gostei mais, confesso...).

Quando comecei a ligar a estas coisas do futebol com mais entendimento, nos inícios dos anos 90, a selecção era praticamente ignorada. Vivia-se no auge dessa patologia conhecida como clubite. Eu, pelo contrário, sempre me interessei mais pela selecção do que pelo meu próprio clube. Era uma oportunidade de ver jogar juntos os melhores jogadores portugueses e isso bastava-me. Agora, passou-se para o extremo oposto e não se fala noutra coisa. É impossível ver 15 minutos de televisão sem ser interrompida a emissão porque o Petit foi à casa-de-banho, porque o Ronaldo partiu o seu telemóvel, porque o Deco meteu o dedo no nariz ou porque há meia-dúzia de emigrantes portugueses a comerem feijoada à porta do hotel da selecção.

Não há paciência! É resumos, é directos, é reportagens, entrevistas a qualquer tipo que ande de cachecol e aos saltos por esse país(es) fora (Portugal e Suíça). Bons tempos aqueles, em que víamos o que realmente importava - os jogos - com um resumo e análise breves à noitinha.

Como é o país que somos, um país que, devido a estas atitudes, denota, segundo o jornalista David Borges, traços de mentalidade terceiro-mundista, e como temos uma boa equipa, estamos condenados a este carrossel durante todo o mês de Junho. Se Portugal for campeão, Julho é todo para comemorar. Depois mete-se Agosto e vai tudo de férias. Setembro é para acordar e enfrentar o Inverno e o regresso ao trabalho, que se avizinham. Ou seja, até Outubro o país vai parar físicamente, e digo físicamente, porque mentalmente já ele anda todo o ano...

Durante esse período, o preço do combustível até é porreiro, a educação funciona bem (até porque as escolas estão fechadas), as listas de espera no hospital são coisa menor, os pescadores já não se importam com as dificuldades de sustento, etc, etc.

O circo já temos. Resta esperar que "pão" vai ser distribuído...