06/09/08

Notas Contemporâneas

1-A constante referência do passado de herói de guerra de John McCain como trunfo perante Barack Obama nas eleições para a presidência dos Estados Unidos não pode deixar de me fazer lembrar um sketch do Gato Fedorento. Sim, aquele do "gajo de Alfama", que a partir do momento em que diz que esteve na Guiné ganha um tal ascendente sobre os demais convidados, que o torna o mais capacitado e informado comentador sobre tudo o que se passa no mundo das relações internacionais.*


* Apesar de todo o respeito que me merece o sofrimento por que McCain passou (foi prisioneiro de guerra no Vietname durante 5 anos, tendo sido vítima de doença, tortura e isolamento).

2-A História mostra-nos que as revoluções contemporâneas foram sempre impulsionadas, não pelas classes mais baixas, ou pelas classes mais altas, mas sim pela classe média descontente.

Olhemos então para o que se passa hoje em dia em Portugal.

As novas gerações são as que melhores habilitações académicas possuem. São mais cultas (por vezes, diz-se que os jovens dos anos 50 e 60 e por aí fora eram mais cultos - talvez, mas eram uma minoria, com uma cultura reduzida praticamente à influência francófona e marxista ou afim), o acesso fácil à viagem dá-lhes um conhecimento do mundo muito maior (antigamente, os que podiam sair de Portugal, não saíam do circuito Paris - Suíça - Alemanha, onde estavam as universidades), dominam as novas tecnologias e as línguas, etc, etc.

Porém, só uma minoria, mesmo muito minoria das novas gerações é que consegue o acesso a cargos, postos, empregos, de acordo com as suas competências. Este facto gera frustração. À medida que o tempo for passando e que este grupo de pessoas vá engrossando, a frustração será maior. A consciência de que são os mais capazes, mas que não conseguem chegar onde merecem por factores que lhes são alheios, gerará uma massa de jovens e jovens adultos descontentes. Uma massa que, ao contrário de outras massas do passado, tem margem de manobra, tem poder, o poder do conhecimento, do esclarecimento. Um dia, quando essa massa for suficiente grande, poderemos vir a enfrentar convulsões político-sociais decisivas, não apenas a nível nacional, mas sobretudo europeu, caso não surjam soluções alternativas para a política de emprego que se vai praticando.

Trata-se apenas de uma reflexão. Não sei se fará sentido a toda a gente. A mim faz. Algum, pelo menos.

3-Hoje, ao passar pela RTP1 dei de caras com um videoclip dos Metallica. Tratava-se de "The Day That Never Comes", do seu novo álbum intitulado Death Magnetic.

Gostei. Parece-me haver uma tentativa de recuperar alguma da sua sonoridade nos anos 80 e princípio dos 90. Na verdade, quase consegui reconhecer partes de músicas de álbuns do passado em diversas passagens da nova faixa. O corpo da música, por assim dizer, lembra-me o "The Unforgiven"; o refrão tem algo do "Fade To Black"; há uma espécie de interlúdio, que me lembra as guitarras enroladas do Load misturadas a bateria crua, violenta e complexa do ...And Justice For All; depois, há uma sequência instrumental acelerada que lembra o "One", a que se segue uma fantástica guitarra melódica, que remete para Iron Maiden (uma das influências da banda - talvez não seja por acaso que, este ano, no concerto que deram no Rock In Rio, Kirk Hammett, numa das improvisações de guitarra entre-músicas que são seu hábito, tenha dedilhado um pouco de "Hallowed Be Thy Name", dos Maiden) e para o metal mais progressivo, o qual tinham por hábito aflorar pontualmente em álbuns como Ride The Lightning, Master Of Puppets e ...And Justice For All.

Em conclusão: trata-se de um épico de 8 minutos, com uma estrutura muito semelhante a "One" (o tema também é a guerra), embora com uma componente progressiva mais marcada.

Aqui fica o videoclip. Veremos o que o resto do álbum nos reserva...



METALLICA - "THE DAY THAT NEVER COMES"